Publicado por: Paulo Ghiraldelli Jr. | Julho 7, 2008

O burro existe. Você é burro?

Como identificar um burro? Simples: é só prestar atenção na metáfora. O burro, animal, tem uma característica muito fácil de identificar: quando empaca, nem um trator consegue removê-lo. É exatamente isso que ocorre com a pessoa burra: ele empaca em um só pensamento, e nada consegue movê-la. Daí a metáfora. O ato de empacar é que construiu a metáfora.

Em geral, o burro é acobertado pela idéia de coerência, e então, sobrevive anos laureado.  Como a idéia de coerência é algo que, aplicada a conjunto de enuciandos, pode até ser nossa única chance de termos na mão algo sustentável, ela é forte candidata a ser endeusada. Todavia, a coerência, quando aplicada a uma vida, a uma disposição de espírito, pode ser apenas a maneira bonita de dizer: o fulano está empacado em uma só idéia, e se o mundo muda, ele não muda. É o burro. Mas, se é autor e tem algum poder, é o “coerente”. Ou se é estudante, também pode ser assim chamado – pois o “politicamente correto” nos proibiu de chamar aluno burro de burro.

As pessoas burras adoram doutrinas fáceis. E sempre adotam o maniqueísmo. O homem ou a mulher, quando chamados de burros, assim agem: fixam o pensamento. E o maniqueísmo do marxismo ou de qualquer outra religião, ou a forma de pensar do fascismo, são propícios para tal. Dão esquemas que são válidos para qualquer coisa, ou aparentemente válidos, então, são como imã para o cérebro de quem não gosta de pensar e refletir. Há sempre só dois caminhos, só duas cores, só dois tipos de vida. E uma delas é a que não se pode tomar, é a do demônio. A religião, as novelas, o marxismo e o fascismo ensinam assim. O burro fica contente, pois ele aprende. Como um burro fica feliz quando ele é acusado de aprender algo!

Quando a direita diz que “qualquer política social é robalheira”, ela não está só se posicionando como direita, ela está se mantendo burra. Quando a esquerda diz que temos problema “por causa do capitalismo”, ela não está se fazendo de esquerda, ela está sendo burra. “Capitalismo” é uma palavra que não explica nada. Lançar mão dela para dizer algo é não querer dizer nada de útil. Negar a política social e o Welfare State, sem grandes argumentações, é algo semelhante, é não conseguir entender como que nasceram os Estados Modernos e, portanto, é fixar um comportamento burro para a direita. A esquerda e a direita podem ganhar selas para serem cavalgadas, o triste é ver que, neste caso, o animal é o que vai em cima da sela.

Pensar a política é pensar caso a caso. Pensar de modo inteligente é levantar elementos que se contradizem em cada proposta de ação e em cada descrição. Pensar de modo inteligente é não confundir nossas tentativas de descrição com nossas visões utópicas. Ser inteligente é estar preparado para perceber que não se pode empacar, pois o mundo não empaca.

A saida para não ser burro não é, no entanto, a de só vir a admitir a mudança. Se fosse assim, seria fácil. Para não ser burro é necessário ver que há réguas diferentes para se mensurar o que está mudando. Quando olhamos o mundo a partir de uma ótica de um, certo Marx, por exemplo, podemos (mas não deveríamos) achar que a história ocorre somente quando mudamos de modo de produção. Então, para essas pessoas, se estamos “no capitalismo”, e alguém diz que não vamos sair do capitalismo, elas respondem como bons burros: “ah, quer dizer que a história acabou?” Elas se acham inteligentes dizendo isso, mas são burras. Não passa pela cabeça delas que, para outros, podemos andar uma eternidade no que ela chama de capitalismo e, no entanto, não haver indícios de que a história parou. Pois, para outros, não marxistas, a história não anda a partir da troca do que Marx conceituou como “modo de produção”.

Algo semelhante ocorre com o fascismo, ou a direita em geral. O nazismo tinha uma concepção cíclica da história. Os nazistas entendiam que todo império tinha seu apogeu e sua decadência, por isso, a guerra não era temida – se a Alemanha fosse derrotada, ela nada teria feito de diferente do que outros impérios fizeram. Não à toa Hitler queria construir monumentos com grandes alicerces, para que eles ficassem para a história, para serem descobertos por civilizações do futuro. Quando a Alemanha começou a perder a guerra, os “teóricos” do nazismo começaram a dizer abertamente que iriam queimar Berlim toda, mas não para evitar serem pegos vivos, e sim para que a derrota fosse total. Só das cinzas poderia emergir o nazismo, no futuro, e então viria a nova época da Grande Alemanha. Esse tipo de pensamento que vê o movimento histórico em forma de roda é tão burro quanto aquele que vê o movimento da história como zigue-zague “dialético”. Eles querem ser únicos. Essa é sua burrice. E sendo burros, não analisam caso a caso.

Toda vez que vejo garotos das ciências sociais e até mesmo da filosofia lendo Leonardo Boff ou elogiando Fidel Castro, como Niemayers jovens, tenho de admitir que eles leriam Hitler com gosto e elogiariam Mussolini. Não são só pessoas que se posicionam à direita ou à esquerda, são antes de tudo burros. Não podem admitir que as coisas sejam caóticas,  e que tenhamos, para entender algo, de fixar nosso olhar mais de perto, sem tantas categorias prévias. Não conseguem admitir, também, que talvez possamos olhar, olhar, ouvir e, enfim, não termos o que dizer.

Infelizmente, os burros tem o poder de se criarem sem ter o poder de se destruirem. Pois saímos do tempo rural e caminhamos para o tempo urbano, e a maioria das universidades e palácios abandonou o sistema das fazendas em que na porta de entrada havia o mata-burro.

Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”.


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